Medicina e Espiritualidade

                                                                O papel da dor

 

Algo ainda bastante para a maioria de nós é “compreender o papel” da dor em nossas vidas. Sim, já faz muito a percebermos como fantástico mecanismo de proteção, pois é ela quem nos sinaliza que algo vai mal… Torço o meu pé, e a dor me impõe a imobilização do mesmo, para dar-lhe condição de recuperação. Sofro uma amigdalite, e a dor de garganta sinaliza a necessidade de cuidados para este órgão. Abuso do trabalho e logo uma dor haverá de chegar (com o nome de “stress”) e advertir quanto aos caminhos equivocados. Dor, portanto, demonstra evidente sinal de desiquilíbrio. Esteja no plano material ou etérico, físico ou emocional… e desiquilíbrios merecem atenção para que possam ser corrigidos. Posso defender-me a partir do momento que tomo conhecimento de que há uma desordem em curso. E a dor é dos maiores sinais de alerta nesse sentido. Mas ainda que saibamos ser a dor, antes de tudo, uma amiga, nosso relacionamento com ela costuma não ser dos melhores. Não é uma amiga cuja visita consideramos agradável. Não a queremos por perto… Ao contrário, recebe de nós rejeição total, e fazemos tudo que está ao nosso alcance para livrar-nos de sua presença. Compreensível. Não diria mesmo ser visita agradável, ou que deveríamos mantê-la uma vez que temos condições de suprimi-la. Ainda assim, não há dúvidas: temos na dor uma amiga e grande aliada em nossas vidas. Eventualmente, este relacionamento é menos desastroso ao lidarmos com dores físicas, até pela evidência material do desiquilíbrio. Uma vez que a fratura é detectável, compreendo a dor que me acomete o pé lesionado e aceito com certa tolerância a imobilização incômoda que possibilitará a restauração. dificilmente alguém desejaria, em tais condições, apenas ingerir analgésicos e continuar com sua vida tradicional, como se este membro estivesse em condições de funcionar perfeitamente. Mas a relação vai se deteriorando à medida que fatores menos concretos são incorporados à equação. Não tenho a mesma facilidade em conviver com minha “gastrite nervosa”, ainda que saiba que também que esta é sinal que algo precise se reequilibrar. Fosse a gastrite causada por uma bactéria, usaria um antibiótico e um medicamento que diminuiriam os sintomas… Logo tudo estaria resolvido. Mas o fato de o principal fator desencadeante ser o estresse, e a afirmação de que preciso “mudar meu modo de vida” para ter chance de aliviar tais sintomas, isso é muito mais difícil de engolir. Agora, se falarmos de dores de dores emocionais, aí temos a tragédia plena! É realmente impressionante como lidamos mal com nossas dores da alma. Lidar com a tristeza da perda, do afastamento, com nossa fragilidade e impotência, desentendermos com nossos afetos… Conviver com a dor emocional do outro, com o que existe em mim a expressar-se também naquele que comigo se relaciona… a rejeição é total! É inútil, porém, rejeitar. A dor está ali, parece ter vida própria. Que fazer? “Ok, se não pode vencê-los, junte-se à eles!” E, da rejeição à dramatização, em que assumimos postura de vítimas, apenas um pequeno passo. Somos mesmo como crianças birrentas, que ao lidar com frustrações, desesperam-se. E nossa tolerância parece ser diretamente proporcional à concretude do fato. Até poderia ver aqui uma incoerência, mas acabo percebendo ser apenas uma evidência de nossa imaturidade espiritual. Ainda que compreendamos o corpo como veículo de expressão do “espírito” no qual reside nossa essência. Falta-nos ainda internalizar esta realidade, para que consigamos ampliar nossa tolerância às dores da Essência, da Alma, do Espírito. E o essencial, ainda que que “invizível aos olhos”, é essencial. Natural encontrarmos nessa esfera maiores dificuldades. Mas será bom se conseguirmos despir-nos desta rejeição referente à própria dor emocional. Façamos as pazes conosco, com nossas limitações, e essa tolerância naturalmente se ampliará. Lembremo-nos, a dor é sinal de desequilíbrio. Frente a dores emocionais, provavelmente teremos em mãos a oportunidade de lidar com os desiquilíbrios de nossa essência espiritual. Abençoadas sejam estas oportunidades. Que abram-se em nós os olhos de ver, que a intolerância não remova a chance de crescer na esfera em que mais necessitamos. Há um que diz “que a pior dor é a dor do momento”. Verdade! E é bom que assim seja, pois sendo “a pior dor”, exige de nós maior atenção. E isto é perfeito, visto que o “momento” é a única coisa da qual realmente dispomos. Só posso agir no hoje, no aqui e agora. Então, só posso atuar sobre minha dor do momento. Que eu o faça, em busca do meu equilíbrio. A dor do passado só pode ofertar alguma experiência, e se me prendo a essa, acabo por gerar desiquilíbrios adicionais. A do futuro sequer a conheço, e sofre-la por antecipação é uma das atitudes menos lúcidas que podemos ter. Se minha amiga dor me visita no hoje, que eu receba-lhe a mensagem e colha o ensinamento que traz consigo. Aprendamos a receber a visita dessa amiga. Ela pode nos educar e orienta muuuuuito! Ainda que não seja agradável, é extremamente útil. Toleremos sua companhia com a mente e o coração atentos, e ela será mais breve, durando apenas o tempo necessário para absorver-lhe a doutrinação. Afinal, DOR pode ser a professora eficiente, que se dispõe a nos indicar haver melhores rumos a seguir, principalmente quando outras advertências já se mostraram ineficazes.

Eliara Farias, médica psiquiatra formada e especialista pela UFG.

Trabalhadora e diretora administrativa da Comunidade Espírita Ramatís.

 

Goiânia, 09 de junho de 2018 

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