INFORTÚNIOS DA ALMA – Irmão José

“Esses infortúnios discretos e ocultos são os que a verdadeira generosidade sabe descobrir, sem esperar que peçam assistência.” – (“O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Cap. XIII – Não saiba a vossa mão esquerda o que dê a vossa mão direita.)

Muitos são os que reparam os que encontram caídos nas estradas da Vida, denunciando na queda a sua flagrante necessidade de socorro imediato.

Poucos, no entanto, são os que conseguem enxergar aqueles que, embora estejam em pé, caminhando com relativo equilíbrio e, aparentemente, vivendo sem problemas, jazem profundamente caídos na intimidade de si mesmos.

O infortúnio oculto não possui endereço apenas e tão-somente no casebre onde a necessidade material se instalou de maneira inapelável.

Ele igualmente se encontra no domicílio espiritual de milhares de criaturas, que, a fim de que possam continuar enfrentando as dificuldades da existência, mendigam uma palavra de coragem dos lábios capazes de proferi-la.

Por detrás de uma pessoa socialmente bem posta e, por vezes, trajada com bom gosto, pode se esconder alguém que anseia por encontrar quem lhe estenda o óbolo de sua fraterna compreensão nas grandes lutas psicológicas que sustenta, praticamente a sós.

O caído da estrada, na Parábola do Bom Samaritano, não é apenas aquele que foi vítima de salteadores que lhe deixaram o corpo coberto de feridas…

Neste momento, ele pode estar ao teu lado, na roupagem de um familiar ou amigo mais próximo, à espera que venhas a ser para ele o que o Bom Samaritano foi para a vítima anônima que, desavisadamente, descia de Jerusalém para Jericó.

Recordemo-nos, por exemplo, de quantos que se entregam à depressão e não cedem a semelhante condição psíquica de uma hora para outra. As suas forças de resistência, sem que fossem amparadas, foram se esvaindo aos poucos, ante a falta de sensibilidade de quem não pôde ou não procurou enxergá-los na derrocada.

Muitas das vítimas de suicídio, se contassem, pelo menos, com quem pudesse lhes ouvir em desabafo, demonstrando algum interesse pela sua felicidade, não chegariam à prática do gesto extremo em que deliberaram fugir aos conflitos que não lograram dividir com ninguém.

Os infortúnios ocultos da alma são infinitamente mais numerosos que os infortúnios ocultos relativos à carência de ordem material. Neste sentido, no mundo atual, vive-se uma verdadeira calamidade.

Estende, sim, o pão ao faminto, o agasalho ao despido e o remédio ao doente. Mas, tanto quanto seja possível, aproxima-te do irmão entristecido, que, não raro, vive debaixo de teu mesmo teto, e, sem que ele tenha necessidade de algo pedir-te, toma a iniciativa de oferecer a ele migalhas do teu amor.

Irmão José (psic. Carlos Baccelli – do livro “Vinde a Mim”)